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Salvem as abelhas antes que seja tarde

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Crédito: dtimiraos via Salon

A Comissão Europeia sabe a importância das abelhas: Em 2011, ela aprovou uma moratória de 2 anos sobre uma classe de pesticidas que acreditava estar influenciando no declínio da população de abelhas. Os químicos, segundo sugerido por estudos científicos, poderiam estar contribuindo para a “Desordem de Colapso de Colônia”, ou CCD em inglês, a sigla que define o misterioso e assustador desaparecimento, aparentemente da noite para o dia, de colméias inteiras. Nos últimos 6 anos, os EUA perderam cerca de $2 bilhões de dólares em colméias, e como resultado, $30 bilhões de dólares em lavouras, para o CCD.

No Brasil não tem sido diferente, só em Santa Catarina morreram 100 mil colméias de abelhas por causas desconhecidas em 2011, um terço das 300 mil existentes na época. Mais recentemente, 4 milhões de abelhas foram mortas no município de Gavião Peixoto, município produtor de mel do interior de São Paulo. A suspeita foi confirmada após laudo feito a pedido do Departamento de Agricultura e Meio Ambiente do município, a presença de Glifosato e Clorpirifós (herbicida e inseticidade respectivamente) foi constatado nos animais mortos.

A controversa decisão da comunidade européia, logicamente, não é o suficiente para salvar as abelhas, mas é um começo. Os EUA, apesar de reconhecerem um “complexo conjunto de agravantes e patógenos”, incluindo agroquímicos, como potenciais culpados nas mortes, ainda não agiu conforme. Em Março de 2013, um grupo de apicultores e grupos ambientais entraram com uma ação contra a EPA (Environmental Protection Agency) por ter falhado em proteger os animais e por consequência, o fornecimento de comida. A agência, contudo, alegou não conseguirá concluir a revisão dos pesticidas até 2018.

No Brasil, o Ibama iniciou um processo de reavaliação de 4 agrotóxicos associados a efeitos nocivos às abelhas, mas por pressão, flexibilizaram o uso dos mesmos por falta de tempo para adequarem-se às novas regras.

Mas o problema não se limita aos agrotóxicos, diz Dave Goulson, e não apenas as abelhas produtoras de mel que estão sofrendo com o problema. Há mais de 20 mil espécies de abelhas no mundo, e a perda de habitat, doenças, além dos pesticidas, ameaçam todas elas – sem contar com os outros insetos que provavelmente também são afetados, e as espécies que alimentam-se destes insetos em declínio populacional.

Professor de biologia pela universidade de Sussex e fundador do Fundo de Conservação das Abelhas Produtoras de Mel, Goulson é autor de mais de 200 estudos científicos de abelhas e outros insetos e, mais recentemente, de “A Sting in the Tale” (Um Ferrão na Cauda, ainda sem tradução no Brasil), que registra em detalhes sua fascinação de longa data pelas abelhas produtoras e sua jornada para prevenir sua extinção. “Eu acho que está bem claro que o mundo em que meus filhos estão crescendo vai ser um lugar bem mais pobre do que temos hoje”, disse em entrevista para o Salon. Contudo, ele é cauteloso em afirmar, nós ainda temos uma chance de melhorar as coisas, de pelo menos minimizar os danos. Ele tem várias sugestões de como pode ser feito. Uma versão resumida e pouco editada da entrevista segue:

Você tem estudado o declínio das abelhas por pelo menos 20 anos hoje. As mortes que ouvimos falar hoje são um fenômeno recente ou são parte de um padrão de declínio?

Então as mortes relatadas recentemente são, em sua maioria, relacionadas às abelhas produtoras de mel, que são as abelhas que mantemos em caixas para coletar o mel que produzem. Muitas pessoas acreditam que estas são a única espécie de abelhas, mas claro que não são. Existem na verdade 20 mil diferentes espécies de abelhas no mundo. Quase todas as outras são abelhas selvagens, as quais não são igualmente protegidas, elas cuidam de si mesmas. Elas são igualmente importantes, mas na verdade nem sabemos o que está acontecendo com a maioria delas.

Basicamente, as causas de morte e do declínio de suas populações são geralmente as mesmas para todos os tipos de abelhas, até onde sabemos. São três as maiores causas mais evidências de culpa. Você ouvirá todo tipo de tolice sobre outras causas. Pessoas te dirão que os celulares são culpados pelo desaparecimento; ou de campos com plantas geneticamente modificadas (transgênicos) que é bem popular – até considerada plausível, mas não muito mais que a dos celulares.

Primeiramente, a perda do habitat. A agricultura mudou radicalmente nos últimos 100 anos. Na Inglaterra nós tínhamos cerca de 50 milhões de acres (cerca de 4 km) de campos de flores silvestres, e perto de 98% dele foi destruído no século 20, quando intensificamos a agricultura e tentamos aumentar a produção de alimentos. Este problema teve seu início com a II Guerra Mundial: Subsídios foram introduzidos para pagar os fazendeiros para que limpassem os campos e essencialmente destruíssem todo o seu habitat natural para transformá-lo em monocultura. Isso aconteceu e continua a acontecer em todo lugar: Atualmente a maior parte da América do Norte tem campos de colheita massivos, por conta da disponibilidade dos pesticidas, e herbicidas em particular, que significa que você pode cultivar as safras livre de ervas daninhas. Eu questionaria se é sustentável, mas pelo menos no curto prazo, produziu muita comida. Mas isso também significa que existem muito menos flores. É difícil ser uma abelha, já que tudo que você come é pólen, néctar e flores. Provavelmente é a maior aposta para o que estaria afetando as abelhas.

Razão número dois é doença. Nós acidentalmente redistribuímos doenças de abelhas pelo mundo. Abelhas produtoras não são nativas das Américas; elas vem da África. Infelizmente, quando as pessoas transladam as abelhas, também levam consigo as doenças e parasitas, caso estejam infectadas. E elas são passadas entre espécies diferentes, então uma doença que afeta uma abelha produtora também vai afetar um abelhão e vice-versa

Número três são os pesticidas, que são toda uma história à parte, mas alguns inseticidas que usamos são realmente tóxicos para as abelhas, e para a vida selvagem em geral, e isso certamente contribui para o problema.  Associando essas três causas, a coisa fica feia.

Apenas para esclarecer, qual a maior diferença entre as abelhas produtoras, que é a abelha a qual mais ouvimos falar e as outras espécies? Comparativamente, quão importante são elas para os alimentos, agricultura, polinização e este tipo de coisa?

Se você pedir uma criança para desenhar uma abelha, ela desenhará algo grande e gordo com faixas pretas e amarelas. Este é um abelhão. Abelhas produtoras são bem menores: elas não são peludas, são bem esguias, são criaturas marrom claro e são as que vivem nas colmeias de abelhas produtoras. Existem, também, todas as outras espécies de abelha, que em sua maioria são pequenas e bem discretas.

Em termos de polinização de plantações, elas são todas importantes até certo ponto. Diferentes plantações tendem a ser mais bem polinizadas por diferentes abelhas. Tem a ver com o formato e tamanho da abelha e o tamanho de sua língua. Tomates são quase sempre polinizados por abelhões, junto com outras plantas tais como o mirtilo, framboesa, morangos, feijões e outros vegetais. Abelhas produtoras fazem um trabalho distinto, amêndoas são sempre polinizadas pelas abelhas produtoras. E muitas são polinizadas por várias espécies de abelhas. Mas o resumo disso tudo é que todas são importantes. Seria provavelmente mais sábio garantir que olhemos para uma variedade de abelhas, já que um dos perigos do mundo moderno é que algumas plantações dependem exclusivamente nas abelhas produtoras. Quando usamos muitos pesticidas, acabamos por nos livrar de abelhas nativas e selvagens, restando como opção comprar abelhas produtoras.

Amêndoas são um bom exemplo disto. Elas são cultivadas intensamente e algo em torno de 1,5 milhão de colmeias de abelhas produtoras são transportadas para o norte da Califórnia. A maior parte das abelhas produtoras da América do Norte poliniza amêndoas em uma pequena área da Califórnia toda primavera. E se algo acontecer com o suprimento daquelas colmeias, os produtores estarão perdidos, porque eles não teriam nenhuma outra opção. Isto é muito preocupante. Seria uma situação mais saudável se eles encorajassem e apoiassem tanto a preservação das abelhas selvagens quanto das produtoras como um plano B. O modelo atual é bem arriscado.

A União Europeia tem sido mais progressista que os EUA em banir os pesticidas que podem estar prejudicando as abelhas. Você pode falar um pouco sobre como a U.E. conseguiu passar esta lei e se estão percebendo algum efeito?

Sim, então, na União Europeia nós recentemente banimos, por dois anos, três tipos específicos de neonicotinóides, um tipo de inseticida que é quimicamente relacionado à nicotina. É uma toxina relacionada aos nervos que afeta o cérebro da abelha e de qualquer outro inseto. É muito tóxica para os insetos, mais do que qualquer outra substância inventada antes. Para ilustrar isto, um quinto de uma colher de chá suficiente para matar 250 milhões de abelhas. No Reino Unido, que tem uma área bem pequena, temos que comprar 80 toneladas deste químico todo ano – os números nos EUA são bem maiores. Então nós estamos colocando toneladas e toneladas dessa substância nas terras, o que é persistente, é sistêmico, contamina as plantas, o pólen e néctar.

A maioria dos cientistas que trabalham nesta área estão profundamente preocupados que isto esteja basicamente prejudicando nossas abelhas. Não necessariamente as matando diretamente, mas temos boa evidência de que as doses que elas recebem são suficientes para alterar seus comportamentos. Como eu disse anteriormente, são toxinas dos nervos, elas afetam o cérebro das abelhas. A abelha torna-se menos hábil para navegar e não consegue aprender ou associar; são habilidades básicas que elas dominam bem. É essencial para sua função pois é assim que elas encontram flores e guiam-se para retornar ou sair do ninho. Então com as abelhas produtoras ou abelhões, as operárias saem para colher durante todo o dia e elas podem voar por milhas até encontrarem terrenos floridos e trazerem alimento de volta. Mas se elas entrarem em contato com a toxina dos nervos, elas não conseguem orientar-se, e aí ficam perdidas e isso vai diminuir o suprimento de comida no ninho.

Então existe uma boa razão para acreditar que estas fatos estejam prejudicando nossas abelhas. E como resultado, felizmente, decidimos ir em frente com a moratória. Mas ainda não surtiu efeito. A moratória passou a vingar em dezembro 2013, 5 meses atrás, mas toda nossa safra de outono, que é quando a maior parte de nossa safra é plantada, foi tratada antes da moratória. Então se você dirigir pela Inglaterra hoje, você verá muitos campos de canola florindo. Elas são todas tratadas. Então mesmo com a moratória hoje vingando, não veremos os benefícios até, no mínimo, o próximo ano. Para ser honesto, provavelmente levará mais tempo que isso.

Uma moratória de 2 anos não parece tempo o suficiente para medir se vai haver algum impacto real. Quanto tempo nós precisamos de fato?

Bem, provavelmente alguns anos, e eu devo enfatizar que mesmo com esta moratória ativa, as abelhas ainda tem muitos outros problemas, portanto a população não vai ter um aumento vertiginoso. Mas em muitos casos, esses químicos são muito persistentes; nós sabemos que eles se instalam no solo por entre 5 e 10 anos. Então vai levar algum tempo para este produto lentamente desaparecer do meio-ambiente, e nada vai acontecer de forma rápida. Eu esperaria que em 3 ou 4 anos o banimento seja renovado, aí começaremos a perceber uma pequena melhora – não só nas abelhas, mas esperamos que em toda a vida selvagem, porque acho que há uma boa razão para acreditar que estes químicos tem tido um efeito negativo em todos os insetos: insetos como a joaninha, borboletas e todo o tipo benéfico de invertebrados que gostaríamos de ver, e provavelmente os animais alimentam-se deles, como pássaros.

Então é isso, vai levar um longo tempo até podermos perceber os benefícios. Mas o quanto antes começarmos, melhor. Não quero parecer rude sobre isso com vocês, as é muito triste que os EUA estejam tão lentos em lidar com isso. Não há nada acontecendo nos EUA e eu acredito que chegou a hora de vocês agirem.

Então pode-se argumentar que se as abelhas estão tendo esta experiência negativa  com os efeitos dos pesticidas, é bem provável que estes se espalhem pela cadeia alimentar e que animais de grande porte ou pessoas possam também ser afetadas.

É bem provável que um número de animais esteja sendo afetado por falta de alimento. Tenho feito alguns estudos ainda não publicados com várias evidências indiretas que são bem convincentes, parece sugerir que a população de pássaros, particularmente os comedores de insetos, foi atingida. Provavelmente não por envenenamento direto, mas simplesmente porque todo o seu alimento desapareceu.

É possível que haja efeitos na cadeia alimentar também. Estes pesticidas em particular, são menos tóxicos para nós do que eles são para os insetos, mas ainda são tóxicos. E toda a pesquisa de segurança é baseada em efeitos de curta duração. Falando de forma geral, são apenas 48 horas ou dificilmente uma semana, no máximo, e se você testar em ratos ou qualquer animal este estará vivo no final, então você assume que ele está bem. Mas na verdade o que acontece no mundo real é que este animal e os humanos são continuamente expostos por toda suas vidas. Mais ou menos tudo que você come contém um grande variedade de químicos.

Voltando para as abelhas, alguns grupos nos EUA tem pressionado a EPA para decretar um banimento parecido com o do Reino Unido, mas até agora a EPA diz que não irá nem sequer analisar o pedido por alguns anos. Existe algo que possamos fazer para ajudar a preservar as abelhas neste meio tempo?

Muitas das estórias de conservação são tristes porque você não existe forma fácil de envolver-se. Você não pode se envolver para salvar os ursos polares ou tigres ou qualquer animal, mas você pode ajudar a salvar as abelhas apenas no seu jardim no quintal. É fácil encontrar listas de flores que são boas para as abelhas, a “Xerces Society” tem listas para a America do Norte, e a “Bumblebee Conservation Trust” tem uma lista para o Reno Unido. Então qualquer um pode facilmente ir à sua floricultura local e encontrar algumas plantas que são boas para as abelhas. Quando estas plantas florirem, você verá abelhas – mesmo no meio da cidade, abelhas irão te caçar e visitar suas flores se você as cultivar. Se você puder prover alimento limpo, saudável que realmente ajuda, porque é algo realmente em falta neste momento. E talvez elas possam lidar com doenças e o envenenamento se estas tiverem acesso a um bom e limpo alimento de vez em quando. Se você não tiver um jardim, talvez haja locais próximos onde você possa trabalhar, ou parques comunitários e jardins que são propriedade da cidade – cultivar plantas próprias para abelhas fará uma boa diferença.

O quão otimista você está de que possamos inverter este declínio?

O declínio irá continuar por algum tempo. Não só para as abelhas, mas para a vida selvagem. A situação presente é bem deprimente: Estamos basicamente no meio do que chamamos de evento de extinção em massa. Provavelmente muitas espécies são extintas todos os dois, e nada vai conseguir frear este ritmo rapidamente. Mas caso comecemos a mudar, se pararmos de mexer com o planeta, pelo menos poderemos minimizar os danos.

É realmente difícil de saber. Quero dizer, em um dia ruim eu fico bem deprimido com essa situação, e, para ser honesto, eu acho que está claro que o mundo em que meus filhos irão crescer vai ser um lugar mais pobre do que temos hoje. É inevitável, dado que este processo está em andamento neste momento. Já destruímos grandes proporções do ecossistema do planeta e estamos a destruir mais a cada dia. Cultivamos comida de forma altamente hostil a meio ambiente e provavelmente de forma não sustentável. Estamos a testemunhar uma massiva erosão nos solos ao redor do mundo, o que inevitavelmente leva à queda da produção dos plantios. Então qualquer pode se ver completamente deprimido a pensar que o futuro parece sombrio – eu não sei dizer. Espero que não.

Tudo que podemos fazer é dar o nosso melhor neste momento. E nada que fizermos adiantará para ajudar a recuperar o que perdemos. Talvez seja um pouco meloso, mas existe um velho provérbio que diz, “A melhor hora de plantar uma árvore é 10 anos atrás. E a segunda melhor hora para plantar uma árvore é hoje.” Bem, você sabe, se todos começarem a fazer algo, então certamente irá ajudar. Então você precisa tentar e ser otimista, não é? Se as pessoas desistirem e pensarem que não tem sentido, é tarde demais, estaremos realmente ferrados. A vida é dura, às vezes. Alguns tipos de abelhas são mais fortes que outras, então nós iremos perder algumas – na verdade já perdemos algumas – mas se não formos tão estúpidos não perderemos todas elas.

Por Lindsay Abrams, traduzido e adaptado por Eduardo Leite.

Outras fontes: http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/reportagens/onde-estao-as-abelhas

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